Cuca e meus cães.
A recém chegada a nossa família, Cuca, adaptou-se bem conosco. Meu pai, minha mãe e eu possuímos um certo magnetismo sobrenatural em relação a cães. Hoje mesmo, enquanto caminhava, uma cadela não me largava. Pedia com os olhos, olhos como dizem ser o portal da alma (a qual acredito que os animais têm) para que a levasse comigo. E me pergunto sempre o porquê dessa sensibilidade tão grande, que indevidamente me faz sofrer.
Voltando ao assunto, encontrei Cuca por acaso ao visitar meus avós. A cadela caminhava pela rua e logo percebi seus traços da raça labrador. E me perguntei sobre a espécie de ser humano que deixaria uma criatura tão adorável sosinha. Cuca tinha uma amiga vira-lata, e elas permaneciam sempre em frente a uma escola, talvez esperando qualquer tipo de afeto, alguém que as notasse. Pesquisei pelo bairro algo sobre um possível dono. Descobri que os desnaturados tiraram cria da cachorra, e venderam os filhotes por 300 reais. Possivelmente depois de lucrarem com a criatura, abandonaram-na. Depois disso tomei a decisão de levá-la comigo. O dono do bar que me deu as informações havia amarrado Cuca, para que eu a adotasse. Levei a menina para a casa dos meus avós. Logo vi que sua amiga, a vira-lata, havia seguido a labradora. As duas choramingavam, cada uma do seu lado do portão, Cuca com o dote da beleza e do carisma, levou muita sorte de ser adotada, mas a outra, magricela e também dócil, foi menosprezada por mim, por não ser muito bonita, não ter raça. Quando vejo Cuca correndo e rasgando caixas pelo quintal, penso que entre beleza e necessidade, escolhi a primeira. Quantas crianças de orfanatos, que por serem negras, deficientes, mais velhas e com problemas de saúde, já não ficaram para trás, todas vítimas das fraquezas do ser humano?
Sinto um pingo de remorso por minha decisão. Procuro pensar, que ao menos dei a um animal uma chance de ser amado, e que ainda existem muitos por aí que não poderei ajudar.
Quanto a outra cachorra, ela continua lá, em frente ao bar e a escola. Com saudades? Esperanças? Não sei. Será que eles possuem esses sentimentos? Gostaria que eles falassem. Talvez seja por isso que sou tão vulnerável quanto a eles, pela incerteza, pelo medo.